Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

O FIM

O Fim.  04 de Fevereiro de 2006 a 18 de Novembro de 2007*

 

* Datas do vento… para o viajante narrador as datas sofrem um atraso de uma semana.

 

 

 

            The End, em Inglês! A célebre frase que, ao estilo “hollywoodesco”, encerra as clássicas películas que nos habituámos a ver no grande ou pequeno ecrã. Embora alguns, mais arrojados, realizadores tivessem arriscado finais trágicos, a regra, ao estilo das histórias de encantar, era o Happy End. Tudo está bem quando acaba bem!

            Longe da tela de cinema ou do encantado ambiente das histórias que se contam às crianças, a vida passada no palco da realidade é diferente, para não dizer antagónica. O fim implica, quase sempre, dor. Nunca fui, fisicamente, apunhalado no peito mas, imagino que a dor provocada seja em tudo semelhante à dor imposta pelo fim de uma vida a dois. Serão dores em planos distintos… certamente! Uma mais física, outra mais espiritual. Refiro-me à essência da sintomatologia: o ardor e a pressão na caixa torácica, que parece pronta a explodir a qualquer momento e, no entanto, está em contracção, a dificuldade em compassar a respiração que se processa com dificuldade, o fluxo sanguíneo começa a não ser oxigenado e chega ao cérebro descompensado, conduzindo à falta de lucidez, as pernas perdem força, os braços estendidos ao longo do corpo anunciam o momento em que caíremos no chão. O momento do impacto da lâmina a rasgar a carne é quase vazio e ausente. O efeito surpresa baralha o cérebro no instante em que os impulsos nervosos comunicam a dor. Mas ela chega em breves momentos, passada que é a perplexidade… gélida, profunda, cortante. O grito é sufocado pela repentina dor e pela falta de ar… falta-nos o ar. As mãos suam mas, curiosamente o corpo está gelado. Tão gelado como o chão que acolhe a nossa queda.

 

O Caminhante e o Vento – Retalhos de uma vida...

 

Não recordo todos os pormenores… Lembro-me, vagamente, de caminhar perdido pela estrada da vida. “Mas sentia-me bem com o corpo a descansar”, quando descobri uma rua, estreita e escura, que me pareceu um caminho mais rápido para alcançar um objectivo que eu próprio ainda não havia definido. Este novo caminho parecia sinuoso, difícil e até perigoso. Ao mesmo tempo tinha mistério. Havia algo que me impelia a avançar… Era o vento! Soprou-me ao ouvido e com palavras vazias conquistou-me. Era quente aquele vento. Ao mesmo tempo frio, por vezes gélido. Outras vezes morno e algumas quente… reconfortante, amigo até. A cada passo que avançava sentia-me mais envolvido pelo vento. A rua revelou-se irregular e instável, estreita e escura… cada vez mais escura à medida em que cada passo me afastava do caminho original. Segui em frente, por vontade própria, com o vento como companhia. Aquele vento, mistura de Bora e Suão, que me soprava no pescoço e me mordia a orelha… era tão viciante aquele vento que me acompanhava na caminhada.

A rua continuava estreita e escura, às vezes levemente iluminada, em breves trechos, pela trémula luz dos velhos candeeiros a gás. Nos momentos de luz procurava compreender a forma e a dimensão das sombras e silhuetas que se projectavam nas paredes. Estranhas e bizarras figuras eram-me dadas a conhecer. Se semicerrasse os olhos vislumbrava a beleza de algumas fachadas dos imponentes edifícios de pedra que ladeavam os dois lados da, estreita e escura, rua onde acabei apunhalado. Por vezes o medo invadia-me, a incerteza entranhava-se mas, o fascínio permanecia e seguia em frente ladeado pelo vento.

De tempo a tempo, quando o vento soprava mais frio, perguntava-lhe se a estreita e escura rua em que caminhava continuava segura. Por entre sopros e sorrisos o vento assegurava que todos os meus medos eram VIRTUAIS e não passava disso mesmo… Nestas alturas o vento soprava quente, roçava-me a pele e mordiscava-me a orelha ao mesmo tempo que se aproximava mais um velho candeeiro a gás. Segredava ao meu íntimo “não tenhas medo” e seguia em frente. Foram tantos passos em vão. A um e outro candeeiro a gás, a um e outro sopro quente do vento, seguia-se a escuridão e o sopro gelado que eu tentava ignorar, que eu procurei iluminar e aquecer como o simples tom da minha voz... cantando e oferendando o melhor de mim. Tropeçava, vez após vez, mas seguia em frente. Fui muitas vezes abandonado pelo vento… não soprava quente, não soprava frio, simplesmente não soprava! E o vazio que se gerava na, estreita e escura, rua angustiava-me. Tantas vezes bati no meu próprio peito que acabei por marcá-lo para sempre. As feridas cicatrizavam mas as marcas ficaram... segui em frente. No mais profundo do meu âmago acalentava a esperança de um dia chegar a uma ampla e bem iluminada praça, com o vento por companhia, soprando quente a meu lado e empurrando-me para a frente…

Não alcancei o objectivo! Não fiz o suficiente para merecer alcançá-lo!

Fiquei pelo caminho… apunhalado!

Um dia, das sombras da rua, surgiu mais uma pedrada… VIRTUAL – soprou o vento. Ainda hoje não compreendo como é que o imaginário provoca dores tão reais.

Foi o aviso de que algo maior estava para vir. O vento deixou de soprar. Não soprou durante um dia inteiro. Esperou pela noite e apanhou-me no meio da exaustão. Estava extenuado de pensar nos porquês. Porquê aquele fascínio pelo vento, porquê tanta humilhação, porquê tanto amor lançado ao ar… Sem avisar o vento levantou-se, vindo não sei de que lugar daquela estreita e escura rua. Soprou forte como um turbilhão, gelado como um glaciar e com toda a força levantou no ar a faca que me acertou, em cheio, no peito.

O vento, que sempre troçou de mim, riu-se de me ver no chão. Como cão atropelado lambi, por uma semana inteira, as minhas feridas. O vento cessou… por uma semana. Mas, não estava satisfeito e voltou. Estendeu-me a mão com o seu habitual sorriso, que hoje sei que é de escárnio.

- Levanta-te e segue-me – disse - e com um suposto carinho levantou-me e carregou-me ao colo…breves e fugazes momentos de felicidade. Senti que seria capaz de seguir em frente naquela, estreita e escura, rua… Puro engano!

Havia um requinte de malvadez planeado pelo vento. Segurou-me nos braços para me deixar cair do mais alto que teve forças para me elevar. Aquele vento que acompanhei por tantos passos naquela, estreita e escura, rua e teria acompanhado até nem sei onde.

O embate no chão foi pior que a punhalada… desta vez gritei de dor. Morreu a ilusão que, por trás do sopro gélido, o vento tinha por mim um sentimento bonito que se demonstrava na graça de alguns sopros.

Queria vingança? Acusou-me de lhe ter dado pedradas ao longo de todo o percurso naquela estreita e escura rua...

Ao vento grito bem alto:

- As pedras que te atirei foste tu que me as puseste na mão!

 

 

estupidamente, tenho saudades do vento! 

    

sinto-me:

publicado por corrosivojr às 14:28
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7 comentários:
De Anónimo a 4 de Dezembro de 2007 às 23:18
"Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais..."
(Chico Buarque)

As palavras...nem sei se me faltam, ou se morrem nos dedos, frios de noites sem dormir, mas sei que tu, hoje, rua escura onde não sopram "ventos", depressa descobrirás que o há lugares lindos, com sol e flores, e onde o vento que roça a pele, é "sereno", doce brisa que não nos "trai", .... e sabes porquê? Porque a felicidade nunca é uma rua escura.... e por mais "sozinhos que nos sintamos", há sempre gente que nos "sabe ler", porque partilhar diminui a dor.... Creio, profundamente, que a tua "metade" tem de ser colorida e alegre, tem de brincar ...e levar-te...e ter ironia....porque não existem "sentidos proibidos" nas relações, existem sentidos a dois ..... e depois, do lado de fora, gente preconceituosa! Vales e és muito mais que isso... mas infindavelmente "muito mais"....


De corrosivojr a 5 de Dezembro de 2007 às 09:43
A sensibilidade do comentário dá-me pistas sobre o seu autor(a)... em todo o caso tenho pena de não estar assinado.

Muito obrigado pelas bonitas palavras...


De Anónimo a 5 de Dezembro de 2007 às 16:28
...rsss...é claro que assino, só não o fiz, porque, despistada como sou, quando me apercebi já tinha carregado bo "botom"... modernices, estas informáticas! Assino sim..... com o nome do meu blog...rsss... Memórias de um beijo / Nua de Palavras! ;-x


De corrosivojr a 5 de Dezembro de 2007 às 23:50
Foi exactamente em ti que pensei minha querida... Tu que me conheces há tão pouco tempo e foste capaz de ler a minha alma com um único olhar...

Beijos


De Brama a 5 de Dezembro de 2007 às 23:28
Gostei do texto ... está muito rico e cheio de malabarismos metafóricos ... mas também não é preciso ser mais explícito ... quem precisa de entender ... entende naturalmente e compreende.
A minha opinião tu já a sabes, pessoalmente ... não preciso adiantar mais ... só que o texto é muito bonito


De Graduated_Fool a 14 de Fevereiro de 2008 às 13:13
Triste, muito doloroso de ler, lindíssimo! Excelente, meu querido.
Sei tão bem, mas tão bem o que tudo isto é, tudo. E ainda assim é pouco perante o que se sente.
Só a recordação do quanto já vivi isto é, por si só, muito difícil.


De corrosivojr a 16 de Fevereiro de 2008 às 19:08
Sabes meu querido amigo... Somos felizes por sentir tão dolorosa pena com este texto. Somos felizes porque já amámos! Apenas aqueles que já o conseguiram sente a dor deste texto...


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