Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

Oh Lurdinhas... temos cara de otários??? Parte II

Na continuação do post anterior, vou ajudar o comum leitor a entender o ponto de vista dos reles docentes deste país... os tais que fogem do trabalho como o diabo foge da cruz! Ora bem, vou relatar dois possíveis dias de trabalho docente:

Hipótese um:

7 horas da manhã -  acordo. Levanto-me, como, bebo café e fumo um cigarro (puro lazer). De seguida o desejado banho matinal (ajuda-me a acordar). 7:35, estou a descer a escada do meu singelo apartamento para entrar no carro (pequeno e já com muitos kms... não fique o leitor a pensar que por ser professor sou proprietário de uma mansão e de um Ferrari) e fazer os 62 km que separam a minha casa do templo do saber (?), que é o meu local de trabalho. 8:25, estacionei o veículo e dirijo-me, a passos largos, para a sala de aula onde inicio o primeiro bloco. Passam as 9:15, as 10:00, as 10:50... as 14:00, as 15:00 e em dias mais longos as 17:00. Parou! Fim da jornada de trabalho. "Ensinei" as COMPETÊNCIAS todas que tinha de ensinar por hoje. Tudo correu dentro da normalidade: cada aula com 22, 23 ou mesmo 27 alunos, duas ou três chamadas de atenção a dois ou três elementos mais rebeldes e... dia resolvido. Huffffff, respiro fundo e sigo para outras obrigações que não são profissionais. Decidi que hoje não vou preparar aulas, nem corrigir testes, nem planificar as mil e uma actividades ou preencher os 3 576 impressos que integram os projectos curriculares de turma e outros afins. Por hoje terminou, mesmo, o meu dia de trabalho! Descontando o tempo gasto no movimento pendular, dediquei à minha vida profissional cerca de 8 horas!

 

Hipótese dois:

5:30 da manhã - acordo. Levanto-me, como, bebo café e fumo um cigarro (puro lazer). De seguida o desejado banho matinal (ajuda-me a acordar). 6:05 - estou a descer a escada do meu singelo apartamento para entrar no carro (pequeno e já com muitos kms... não fique o leitor a pensar que por ser professor sou proprietário de uma mansão e de um Ferrari) e fazer os 62 km que separam a minha casa do templo do saber (?) que é o meu local de trabalho. 6:50 da manhã - chego à porta da escola. ALTO!!!!!!!!!!!!!!!!! É muito cedo ainda não é? As aulas só começam às 8.35?!?! Que faço eu a esta hora à porta da escola? Pois claro!!! Vou acompanhar uma VISITA DE ESTUDO! Yupiiiii, estou tão feliz! Depois de ter passado longas horas ou longos dias a preencher pedidos de autorização, fazer contactos com as entidades a visitar e com a transportadora rodoviária, preparar um guião de visita de estudo (afinal não vamos em lazer... temos que ter actividades preparadas para que os nossos alunos não se dispersem), fazer orçamentos, recolher o dinheiro, entrar com a minha parte no orçamento (a escola e o ministério não pagam as deslocações dos docentes em visita de estudo)... chegou o grande momento. Os alunos já estão reunidos junto ao portão, fechado, da escola. Estão eufóricos, gritam, fazem patifarias - próprias da idade, pois claro - como se nunca tivessem saído de casa e feito uma viagem de Faro a Lisboa (alguns nunca o fizeram porque os pais, pessoas muito ocupadas, nunca se disponibilizaram para tal)! Adivinha-se um longo dia - penso para com os meus botões. 7:00 da matina, tudo a postos, depois de feita a chamada, contados os meninos e feito o encarecido pedido para não destruírem o autocarro, partimos rumo ao nosso destino. A viagem corre como normalmente acontece... o menino mal disposto vomita para dentro de um saco (se não for mesmo para o chão), perfumando de azedo o saturado ar do meio de transporte. O amiguinho do lado grita "aiiiiii que cheiro, não aguento, não aguento"! Mas... não há mais lugares vagos e por isso terá que aguentar. Muitos teimam em circular de pé, não por os cintos de segurança, pondo em risco a própria vida e a do desgraçado do professor que, entretanto, tem que circular no autocarro para socorrer todas as situações, não se preocupando com a sua própria vida... Se o autocarro tivesse um acidente e morresse um professor... era apenas um preguiçoso a menos! Mas acontecer algo de mal a um menino seria o suficiente para mandar para a cadeia o maldito professor que por ser irresponsável, além de preguiçoso, não deu a devida atenção ao aluno! O dia continua em elevada tensão. Lisboa... o trânsito, atravessar uma estrada, entrar e sair de um qualquer museu ou centro de ciência... a simples ida à casa de banho é um momento de nervos...

E se desaparece algum??? - penso novamente para com os meus botões. (Esta é uma preocupação de todos os pais, certo???? Então imagine o leitor a aflição deste "pai emprestado" que, não leva à sua responsabilidade apenas um, nem com dois, nem com três meninos... mas sim 30, 40, 50 ou mais (num racio que deve ser de 15 alunos por professor). 

O dia passa... depois de termos realizado as várias actividades, das várias disciplinas envolvidas na Visita de Estudo (temos que rentabilizar uma ida à capital e os quase 300 km percorridos) é hora de voltar a casa! Extenuados entramos no autocarro... são 18:00 horas. Daqui por 3 horas chegaremos a Faro! (Desta vez não descrevo os horrores da viagem de regresso, penso que todos perceberam a mensagem)

21:00 - chegamos a Faro. Os alunos abandonam o autocarro e dirigem-se aos seus Encarregados de Educação (aqueles que têm a sorte de terem pais que se preocupam em não deixar um filho circular sozinho à noite na cidade)! Os professores desfazem-se em desculpas ao motorista do autocarro pelo comportamento dos seus alunos e pelo estado em que ficou o seu veículo. Os pais dos alunos passam ao lado... nem um agradecimento - o normal.  Quase de gatas dirijo-me ao meu carro, o tal pequeno... ainda tenho mais 50 minutos de estrada pela frente!!!!

Foi um árduo dia de trabalho! Feitas as contas, e descontando o tempo gasto no meu movimento pendular (que não é da responsabilidade do ministério nem nada... sim porque como sou otário sou eu que peço para me colocarem a mais de 60 km de casa!), trabalhei, de seguida sem direito a nenhum tipo de intervalo, 14 horas.

 

Pergunta: Qual das hipóteses de dia de trabalho escolheriam???? Um ou dois????

 

Qualquer ser humano no seu normal estado psíquico escolheria a hipótese um! E faria muito bem porque, efectivamente é a única que é considerada pelo Ministério da Educação como dia de trabalho...

 

Não entenderam?????? Eu explico...   No final do cansativo dia de trabalho, descrito na hipótese 2, a prenda que o professor recebe é uma redonda e madura FALTA ao trabalho!

Ah pois é... então o malandro foi passear e deixou ao abandono outras turmas que também tinham aula consigo nesse dia e que não foram na visita de estudo? Grande preguiçoso!

E sabem qual é o conselho que recebem por parte do ministério e por parte da própria escola?  Reposição de aulas... Ou seja, o otário do professor que se matou a trabalhar para preparar e realizar uma Visita de Estudo, que esteve fora da sua residência, com um sem fim de alunos à sua guarda e responsabilidade, o dobro das horas que estaria num normal dia de trabalho, e que ainda foi brindado com uma injusta falta, tem que repor as aulas às quais faltou apenas e simplesmente porque esteve a trabalhar. Grandes malandros e preguiçosos que são estes professores... querem é andar a passear em visitas de estudo! Agora arranjem-se... reponham as aulas a que faltaram, encham mais os vossos dias de trabalho, façam horas extraordinárias que o Ministério da Educação não paga e nem agradece... Afinal não passamos de um número no sistema...

 

Otário eu??? Chega de gozar com a minha cara Srª Ministra... abandone o seu gabinete e vá a senhora acompanhar alunos em Visitas de Estudo! Não pode?? Porquê?? Porque tem outros trabalhos para fazer? Não há problema, marca-se falta à senhora e noutro dia qualquer repõe o dia de trabalho em falta, afinal os dias têm 24 horas!!!!

 

Corrosivo 

 

sinto-me:

publicado por corrosivojr às 11:44
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